Pouco depois das seis da manhã, toda
Klein, em camisa de dormir, sentado na cama, olhava a mensageira a seu lado, que segurava quatro cabeças na mão; esfregou as fontes e perguntou, com bastante resignação: — Quem enviou a carta?
Já nem o deixavam dormir como deve ser?
As três cabeças loiras de olhos vermelhos que Renette Tinkle segurava responderam à vez: — Aquele… — Sem… — cére…
— bro… — o teu… — criado…
Ah, Daniz… Antes eram orações à meia-noite; agora cartas ao amanhecer… Klein inspirou, expirou devagar e recebeu a carta da mensageira.
Desdobrou-a e leu; a sua expressão tornou-se, aos poucos, mais grave, porque o momento em que Daniz e Anderson localizaram o paradeiro da «Vice-Almirante da Doença»
Pelas contas de Klein, daqui a pouco aquele Almirante Pirata e a «Bruxa Branca» Catalina recuperariam a sua «liberdade», deixariam de andar tão escondidos e seriam bem mais fáceis de localizar; mexer agora com o traficante de informações Bath e arrancar-lhe o objecto que servia para contactar Tracy era, com grande probabilidade, assustar o alvo e fazê-la esconder-se ainda mais.
É claro que Klein poderia pedir ajuda à «Rainha do Mistério» Bernadette e obter um meio de, através de um espelho, fixar a posição da «Vice-Almirante da Doença»; mas o problema é que ele suspeita de que o esconderijo do alvo seja um bastião importante da Seita das Bruxas, possivelmente a sede onde se guarda o objecto selado de grau «0». Se assim fosse, mesmo confirmado o paradeiro de Tracy, ele não ousaria «Teletransportar-se» para lá e capturá-la; um contacto, por isso, só poria o Almirante Pirata em alerta.
E se não aproveitasse esta ocasião para contactar, vivo ou morto Bath, depois do raiar do dia a notícia correria de qualquer maneira, e Tracy ficaria igualmente em alerta.
Ora, bolas… Mas isto é também porque Anderson e Daniz desconhecem a verdade dos factos e a mudança de situação no Reino de Loen… Klein pensou um instante e disse à mensageira que aguardava ao lado: — Espera um momento; vou escrever uma resposta.
Inicialmente pensara em «Teletransportar-se» logo para lá e acertar no terreno o que fazer a seguir, mas, depois de ponderar, escolheu escrever.
Embora julgasse que Tsalatu não desperdiçaria tempo num «isco» tão evidente como Daniz, achava melhor ser prudente; o que Tsalatu não faria poderiam bem fazê-lo os seus subordinados da Sociedade dos Esoteristas. Uma organização oculta tão grande teria, decerto, alguns semideuses de grau santo, e bastava ficar preso a um deles para a coisa se complicar.
— Está bem. — A cabeça de Renette Tinkle que ainda não falara adiantou-se a responder.
Klein levantou-se da cama, saiu do quarto para a sala contígua, tirou papel e caneta e escreveu fluentemente: «Arranjem maneira de manter Bath inconsciente até ao amanhecer.
«Depois, saiam imediatamente do quarto dele, afastem-se bem: ali esconde-se um grande perigo.
«Quando raiar o dia, retomem a vigilância sobre Bath, mas sem o sobressaltar.»
O tal «grande perigo» era verdade e mentira: o principal objectivo de Klein era fazer com que Anderson e Daniz se retirassem do local e levassem com eles qualquer vigilância encoberta que pudesse haver.
Pousou a caneta, releu o que escrevera, dobrou a carta e entregou-a a Renette Tinkle, a mensageira que o seguira até ali.
……
Três e dez da madrugada, Mar Embravecido, ilha de Seloss, no quarto de Bath.
Daniz, que mal acabara de arrumar o altar e apagar os vestígios, viu aquela temível mensageira, com as quatro cabeças, regressar ao local.
Gehrman Sparrow nem sequer veio… Daniz, ligeiramente surpreendido, estendeu a mão para a resposta, palpou no bolso e entregou à mensageira uma moeda de ouro.
Quando a figura do longo vestido sombrio e rebuscado, com quatro cabeças na mão, desapareceu, desdobrou o papel e correu nele os olhos a toda a pressa.
Tem, tem perigo! As pupilas de Daniz dilataram-se de golpe; como se lhe tivessem queimado o traseiro, precipitou-se para a porta.
Lá fora, no corredor, disse a Anderson, que estava encostado de costas à parede, com um cigarro enrolado por acender entre os lábios: — Depressa, depressa, vamos embora — aqui há um grande perigo!
— … Foi Gehrman Sparrow que o disse? — Anderson estremeceu ligeiramente e perguntou, pensativo.
— Sim; como sabias? Não podia ter sido eu a descobrir alguma coisa? — respondeu Daniz por instinto.
— Tu? Heh. — Anderson riu-se baixinho e, muito descontraído, perguntou: — E que mais disse ele?
— Mas tu não estás preocupado? Em assuntos destes Gehrman Sparrow é, de facto, muito de confiança. — Daniz pôs o foco no lugar errado.
Anderson calou-se um momento e disse: — A mensageira dele é mais de confiança ainda. Pelo menos, durante os poucos minutos que ela demora a ir e vir, aqui não pode haver perigo nenhum.
Se algum «perigo» se escondesse mesmo ali, mal visse aquela mensageira, recuaria em silêncio.
— … — Daniz quase respondeu que, em termos de imagem, era assim mesmo, mas, por algum motivo, por instinto, desistiu dessa frase.