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Lord of the Mysteries · Capítulo 26

Capítulo 26. Prática

17 de janeiro de 2020 · 6 min de leitura · 1.116 palavras

Toc, toc, toc.

O som dos passos ecoava nos corredores estreitos e sombrios, propagando-se ao longe no silêncio, sem qualquer outro ruído.

Klein mantinha as costas retas, seguindo o padre de meia-idade num ritmo nem rápido nem lento, sem fazer perguntas, sem conversa fiada, sereno como um lago sem vento.

Ao atravessarem um corredor fortemente guardado, o padre abriu uma porta secreta com uma chave e apontou para a escadaria de pedra que descia:

— À esquerda da encruzilhada fica a Porta Janis.

— Que a Deusa te proteja. — Klein tocou quatro vezes no peito, desenhando o formato da Lua Escarlate.

Os seculares usam os costumes seculares, os religiosos os rituais religiosos.

— Louvada seja a Deusa. — O padre devolveu o mesmo gesto.

Klein não disse mais nada. Seguiu pela escadaria de pedra, apoiando-se nas elegantes lâmpadas a gás incrustadas nas paredes laterais, avançando passo a passo rumo às profundezas da escuridão.

No meio do caminho, virou-se instintivamente. O padre ainda estava lá, parado no topo dos degraus, imóvel à sombra da luz a gás, como uma figura de cera que não se movesse.

Klein desviou o olhar e continuou a descida. Não demorou até que seus pés tocasssem o chão frio de lajes de pedra, e chegou à encruzilhada.

Não se dirigiu à direção da "Porta Janis", porque , que acabara de cumprir sua vez de plantão, certamente não estaria lá.

Seguindo o caminho familiar à direita, Klein subiu outra escadaria e surgiu no interior da "Blackthorn Security Company".

Vendo as portas todas fechadas ou entreabertas, não se atreveu a procurar à toa. Entrou na recepção e viu a loira de cabelos castanhos que sorria docemente, absorta na leitura de uma revista.

— E aí, Roseanne. — Klein aproximou-se pelo lado e bateu de propósito leve na mesa.

Clang!

Roseanne levantou-se de um salto, derrubando a cadeira, e gaguejou às pressas:

— E aí, o tempo tá ótimo hoje, você — você — Klein, o que você tá fazendo aqui?

Pressionou a mão ao peito, ofegando duas vezes, como uma garota apanhada em preguiça pelo pai.

— Preciso falar com o capitão. — Resposta breve de Klein.

— ...Você me assustou! Achei que o capitão tinha saído. — Roseanne lançou um olhar fulminante a Klein. — Nem sabia bater na porta! Hmph, devia ter sorte de estar falando com uma mulher generosa e bondosa — hm, na verdade, prefiro a palavra "moça"... O que você quer com o capitão? Ele está no quarto em frente ao da Dona Oriana.

Mesmo com os nervos um tanto tenso, Klein não pôde evitar um sorriso diante de Roseanne. Pensou por um instante e disse:

— Segredo.

— ... — Roseanne arregalou os olhos, incrédula, enquanto Klein se curvou levemente e se despediu apressadamente.

Passou novamente pelo divisor da recepção e bateu na primeira porta à direita.

— Entre. — A voz grave e suave de Dunn Smith soou por dentro.

Klein empurrou a porta, fechou-a atrás de si, tirou o chapéu e fez uma saudação:

— Bom dia, senhor capitão.

— Bom dia. Alguma coisa errada? — O sobretudo preto e o chapéu de Dunn estavam pendurados no cabide ao lado, e ele estava apenas de camisa branca e colete preto. Apesar da linha do cabelo um pouco elevada e dos olhos cinzentos de profundidade impenetrável, parecia consideravelmente mais desperto.

— Alguém está me seguindo. — Klein respondeu honestamente, sem adornos.

Dunn recostou-se na cadeira, entrelaçou as mãos e fixou nos olhos de Klein sua olhar cinzento e profundo.

Não abordou o tema da perseguição. Perguntou, em vez disso:

— Você veio da catedral?

— Sim. — Resposta categórica de Klein.

Dunn assentiu vagamente, sem dizer se era bom ou mau, e voltou ao assunto:

— Pode ser que o pai de Welch não acredite na causa da morte que comunicamos, e tenha contratado um detetive particular da Cidade do Vento para investigar.

A cidade de Conston, no Condado do Mar Interior, é também chamada de Cidade do Vento. Uma região de enorme desenvolvimento na indústria do carvão e do aço, entre as três mais importantes de todo o Reino de Loen.

Sem esperar que Klein desse sua opinião, Dunn prosseguiu:

— Ou pode ter vindo da fonte original daquele caderno. Heh, estamos investigando de onde Welch obteve o Diário da Família Antigonos. Naturalmente, não se pode excluir outros indivíduos — ou organizações — que também estejam perseguindo esse caderno.

— O que devo fazer? — Perguntou Klein em tom grave.

Sem dúvida, desejava que fosse a primeira hipótese.

Dunn não respondeu de imediato. Ergueu a xícara de café, tomou um gole, e seus olhos cinzentos permaneceram isentos de qualquer ondulação:

— Retorne pelo caminho de antes e então faça o que quiser.

— O que quiser? — Klein repetiu a pergunta.

— O que quiser. — Dunn confirmou com um aceno. — Naturalmente, não assuste a pessoa e não quebre a lei.

— Tudo bem. — Klein respirou fundo, cumprimentou, virou-se e saiu do quarto, descendo de volta ao subsolo.

Na encruzilhada, virou à esquerda, banhado pela luz intermitente das lâmpadas a gás dos dois lados, caminhando em silêncio pelo corredor vazio, escuro e frio.

O eco dos passos se sobrepunham, tornando a solidão mais profunda e o medo mais intenso.

Logo, Klein se aproximou da escadaria e foi subindo os degraus, até ver o padre de meia-idade de pé na sombra, à porta.

Ao se encontrarem, nenhum dos dois falou. O padre virou-se em silêncio e abriu passagem.

Caminhando sem uma palavra, Klein retornou ao grande salão de orações. A pureza luminosa dos orifícios do púlpito em arco permanecia a mesma, a escuridão serena da sala continuava a mesma, e a fila de homens e mulheres do lado de fora da confessionário seguia a mesma — só que agora eram bem menos.

Esperou por um tempo e então, com bengala e jornal nas mãos, como se nada tivesse acontecido, Klein se afastou do grande salão de orações e deixou a Catedral de Santa .

Mal havia saído, ao encarar o sol escaldante, sentiu de novo aquela familiar sensação de ser observado — como uma presa nos olhos de um falcão.

De repente, uma dúvida lhe surgiu na mente:

Por que o "Observador" não entrou na catedral atrás de mim? Ainda que eu pudesse aproveitar o ambiente sombrio e a ajuda do padre para ocultar minha breve "desaparecimento", seria difícil para ele fingir orar e me manter sob vigilância? Não estaria fazendo nada de errado — entraria às claras, sem problemas.

A menos que tenha um passado sombrio, que teme a Igreja, que teme o bispo, que saiba que talvez possuam poderes de Transcendente...

Fim do capítulo 26