Vendo que Audrey estava disposta a tentar a investigação, Derlau acenou ao de leve:
— Posteriormente entregar-te-ei o material detalhado, mas devo avisar-te: esta tarefa é deveras perigosa, não pode haver descuido.
Aqui Derlau fez uma pausa:
— Se sofreres um imprevisto e não puderes resolvê-lo por ti, podes pronunciar um nome que te salvará.
— Que nome? — perguntou Audrey, já com uma conjectura.
A expressão de Derlau tornou-se de imediato grave:
— Vem da escritura sagrada do Criador da Terceira Era, toca no segredo supremo do plano da mente e está em estreita relação com algo nosso, dos Alquimistas Psicológicos.
— É «Adão».
Adão… Audrey, contra a expectativa, nem se surpreendeu, mas, à superfície, mostrou-se perplexa, como se não soubesse o que tal nome representa, o que significa.
Derlau não explicou; mudou de assunto:
— Como membro do Comité, deveria estar a teu cargo um objecto selado de «Nível 1»; mas tu e o «Iracundo» mal entrastes neste círculo, é ainda preciso um período de avaliação. Além disso, o anterior delegado da região de
— Isto é: todas as peças seladas guardam-se nesta cidade da mente; vós, normalmente, não as possuís; só se surge um caso, depois de pedirdes, podereis usá-las por breve tempo.
A «Gula», que cobre a capital de Feysac, San Milon, abanou de imediato a cabeça:
— Este modo tem um grave defeito: não conseguimos responder a imprevistos. Quer se trate de inimigos, quer de monstros, ao defrontá-los nunca nos será dado tempo para requisitar.
— Considero que o método actual já é bom o bastante: cada um guarda um objecto selado de «Nível 1» para imprevistos e, quando faça falta, requisita outras peças.
Derlau riu:
— Antes, era assim mesmo melhor; mas agora vós não precisais de preocupar-vos.
— Bastando que ainda tenhais hipótese de resistência num imprevisto, podereis entrar directamente nesta cidade da mente para fugir aos inimigos e, de passagem, requisitar peças.
— Se não houver hipótese, como acabo de dizer, pronunciai o nome de «Adão».
Já disseste «Adão» duas vezes; é provável que «Aquele» já esteja a observar isto — não, talvez tenha estado a observar desde o início… — Audrey ouviu, e o coração quase lhe acelerou.
— E como entramos para aqui, no caso de não termos o teu convite? — perguntou o «Inveja», acenando.
Derlau apontou para o próprio rosto:
— Desde esta reunião do Comité, podereis levar a vossa máscara de personalidade para fora desta cidade.
— Em qualquer parte em que estiverdes, basta que à vossa volta haja pelo menos dois humanos — sim, à excepção de vós próprios — para que, vestindo a máscara apropriada, entreis nesta cidade.
— E estas sete máscaras de personalidade são, em si, ilusórias, ligadas a certas das vossas cognições; não precisam de qualquer forma especial de guarda. Sempre que quiserdes, podereis fazê-las emergir do grande mar do inconsciente colectivo à vossa volta.
Nesse momento, o senhor que envergava a máscara da «Gula», com ar de indulgência e fixação, ponderou um instante:
— Trazer a máscara para fora desta cidade trará efeitos negativos sobre o nosso estado mental e a verdadeira personalidade?
— Algum, sim; é preciso ter cautela; mas, julgo eu, sois todos especialistas do plano da mente, capazes de resolver isso. — Derlau respondeu com franqueza.
Audrey suspeitava que as sete máscaras de personalidade estavam ligadas a Adão, mas não ousou pensar nisso dentro daquela cidade da mente; obrigou-se a recolher os pensamentos e respondeu à observação anterior de Derlau:
— Ambas as formas de guarda dos objectos selados de «Nível 1» me servem; aguardarei pacientemente o fim do período de avaliação.
— Menina, não és nada arrogante. — comentou, rindo, a «Preguiça», com ar de adormecida.
Discutido o caso do enorme dragão mental do condado de Chester Leste, os outros cinco delegados apresentaram, em sequência, factos dignos de nota das suas regiões, fazendo a troca informativa.
Nesse processo, o senhor «Gula», que parecia poder comer um boi inteiro e usar dez anéis, disse:
— A região de Constance anda algo agitada: aconteceram seguidamente vários eventos quase miraculosos:
— Primeiro: a cidade de Constance foi reconstruída numa só noite. Segundo: os cidadãos da cidade de Beldan perderam todos, ao mesmo tempo, um certo período da memória. Terceiro: há um mago errante de poderoso porte, que se diverte realizando desejos alheios, na margem leste do mar Inter-Mares, chamado Merlin
— Além disto, detectei uma anomalia — na cidade de Constance, nos dias seguintes à sua miraculosa reposição, muitos ratos, baratas e corvos perderam a mente.
— Por que pudeste tu detectar isto? — replicou a «Luxúria» ao «Gula», olhando-o de baixo para cima.