Perto da capital de
Bolas de fogo vermelhas, condensadas em cachos e guiadas por uma lança arremessável de chamas, atravessaram um sítio coberto de cadáveres, armas, sangue e fumo de pólvora, e tombaram sobre a zona onde se haviam erguido obras de fortificação de emergência, dando uma série de explosões encadeadas.
Vendo a fumarada erguer-se e as chamas alastrarem, Anderson sacudiu o pó da mão, voltou a cabeça e, sorrindo, disse ao seu imediato: — Não sei quanto mais vamos aguentar… Têm algo a deixar dito? Posso ajudar-vos a redigir o testamento.
Como esperava, viu nos «soldados» em volta uns olhos furiosos; o pensamento deles era notavelmente unânime.
Mas os «soldados» não se mexeram; as miradas baixaram, uma após outra, e voltaram-se para outras direcções.
— Olá: não respondem à provocação. — Anderson arqueou uma sobrancelha. — Isso quer dizer que estão a tramar uma intriga.
Sem esperar a resposta do ajudante de campo e dos «soldados», o caçador esboçou um sorriso e prosseguiu: — Pensam render-se, não é? Para assim protegerem familiares e amigos?
Ao ver que todos os olhares se viraram, de repente, sobre ele, Anderson estalou a língua e abanou a cabeça: — Há pouco tempo que são sobrenaturais; só o eclodir da guerra, graças ao qual puderam extrair materiais principais de poções dos inimigos, vos permitiu chegar a «Caçador», «Provocador», «Incendiário»; mas em matéria de conspiração ainda são novatos.
— Tenho curiosidade: por que não tentam convencer-me a render-me convosco? Não creio dar mostras, normalmente, de ser tão firme; e nem sequer sou crente do «Deus do Saber e da Sabedoria».
Chegado aqui, Anderson lançou um olhar pensativo ao ajudante: — Acaso os altos comandos do outro lado, plenamente irritados comigo, deram ordem de não aceitar a minha rendição?
O ajudante guardou alguns segundos de silêncio e disse: — Já o sabes; para quê perguntar?
Num átimo, os soldados próximos ergueram a mão direita e dirigiram a palma para Anderson, com notável sintonia.
— Se não perguntasse, como poderia confirmar que todos pensam o mesmo? — Anderson, sem perder a calma, riu.
Com a mão esquerda apalpou o ventre; com a direita, enfiou-a no bolso, remexendo em algo que não se via.
Nesse momento, no alto, o sol inchou de súbito, tornando-se enorme; a luz dourada, escaldante, fez com que Anderson e os demais não pudessem abrir os olhos e mal conseguissem pensar em outra coisa.
Acto contínuo, sobressaiu uma torre ilusória, altíssima: cada um dos seus pisos era feito de livros grossos, e em cada livro havia um olho cor de latão; quanto mais para cima, mais sombria, mais carregada de loucura, destruição, mau presságio e desgraça.
Aquela torre prolongava-se até ao céu, como se encerrasse dentro de si o mundo inteiro, incluindo o imenso sol.
…………
Todos os Sanguíneos desta grande metrópole se haviam reunido ali para se prepararem ante o iminente desfecho da guerra.
De súbito, uma intuição fê-lo voltar o olhar para o exterior.
No jardim, as touceiras de erva amarelada e seca recobravam em molhos o seu verdor e cresciam a toda a pressa; em pouco tempo alcançaram a altura de um homem.
Noutras zonas da cidade, parte das árvores das avenidas, não afectadas pelos bombardeamentos anteriores, absorviam freneticamente nutrientes vindos não se sabe de onde, e erguiam-se a cada ponto; em breve atingiam várias dezenas de metros, com ramos robustos e folhas como guarda-chuvas.
Aquelas árvores colossais entrelaçavam-se umas com as outras, cobrindo a meias o céu de Backlund.
Muitos edifícios resultaram empurrados e gretados, ou ficaram envoltos por ramos e trepadeiras, como se há décadas, ou há um século, estivessem abandonados.
Em apenas sete ou oito segundos, muitas zonas de Backlund tinham-se tornado selva primeva.
…………
Após cruzar a porta aberta e entrar na escuridão do interior da Morada do Rei Gigante, Klein pôs imediatamente a atenção na marioneta «Cavaleiro de Prata» que tinha à frente, na «Vara das Estrelas» da mão direita, e no «Faminto Reptante» da palma esquerda.
Por ora não haviam sofrido qualquer mutação; os seus respectivos «fios de corpo espiritual» não davam sinal de corrupção.
Confirmado este ponto, Klein voltou o olhar em redor para examinar o entorno.
Aquele lugar estava mergulhado em escuridão densa, quase substancial; para além de cinco metros nada se via; o chão era de lajes acinzentadas, como tingidas pelo crepúsculo, sem nada de aspecto sobrenatural.
Pensando, com a comissura dos lábios erguida, Klein estendeu a mão ao vazio e agarrou: experimentou invocar um anjo neste lugar.
No segundo seguinte, soltou uma gargalhada, pois o seu sentido de ligação às névoas da história se tornara turvo.
Era essa a razão por que as imagens da fresta histórica que invocara antes haviam perdido o contacto ao entrar nesta zona.
Rindo ainda, Klein virou-se subitamente e dirigiu-se ao sítio por onde tinha entrado.
— Qu—, senhor Sparrow, que vais fazer? — perguntou Derrick, também ele a examinar as restrições que sofria, com algum espanto.
Klein, de rosto sorridente, respondeu: — Agora não é a altura oportuna para explorar isto; vou esperar um pouco e voltar.
— Pensas invocar uma projecção histórica de Sequência 4 para ver se, ao trazê-la cá para dentro, se corrompe e trai? — disse
Klein baixou a cabeça, rindo: — Justamente.