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Lord of the Mysteries · Capítulo 1016

Capítulo 1010: As dádivas hão-de sempre ser devolvidas

17 de janeiro de 2020 · 4 min de leitura · 822 palavras

Ouvidas as palavras do velho, Leonard descontraiu-se ainda um pouco mais.

Voltou a atenção à batalha de nível angélico ocorrida durante a tarde e, com bastante curiosidade, perguntou:

— A grande sombra de serpente, a que via pertence?

Palez guardou um silêncio breve, depois suspirou:

— A «Serpente do Destino», presidente da Escola da Vida, anjo de Sequência 1.

— Não pensava que também ela se tivesse juntado a eles…

O presidente da Escola da Vida? Também ele se tornou Favorecido do senhor «Tolo»? E o arcano correspondente é «A Roda da Fortuna»? — Os olhos de Leonard abriram-se um pouco, achando que a força do senhor «Tolo» igualava já a das sete igrejas dos deuses ortodoxos, profunda além de qualquer medida.

«Magistrado da Morte»… «Serpente do Destino»… «Mensageira Incompleta»… Sob o senhor «Tolo» já se tinham revelado, até ao momento, três anjos… Não admira que Klein se tenha tornado tão depressa Semideus… E há quanto tempo se passou? Eu já estou enredado em combates de nível angélico; o que mais virá no futuro é simplesmente inimaginável… — Leonard, com o papel da carta na mão, sentou-se no sofá, sentindo crescer a urgência de digerir a poção do «Pacificador de Almas» e ascender a «Médium Espiritual».

— Tinha passado este tempo todo a aplacar as almas da região de , mas, por o número de tarefas ser muito grande, ainda lhe faltava bastante para terminar; não encontrava ocasião nem pretexto para ir a Tingen apoderar-se daquela gota do poder do sangue do «Sol Eternamente Ardente», e a chegada do clone de antecipara-se mais do que ele previa.

…………

Bairro Sul da Ponte, Rua das Rosas, Igreja da Colheita.

, vestindo agora a túnica clerical castanha, estava junto à longa mesa em que se dispunham os castiçais, observando — esforçando-se por polir o altar — e, levantando a mão direita, apontou-lhe distraidamente:

— No lado, à esquerda, não está bem polido.

Ernes Boyar, também vestido como clérigo da «Mãe-Terra», lançou-lhe um olhar de rancor; mas obedeceu e repoliu a zona que antes tinha tratado, um tanto à pressa.

— Eu sei que estás aborrecido, tal como eu fiquei ao saber que me vendeste informação sobre o castelo escondendo-me deliberadamente o ponto-chave. — Emlyn riu sem se importar com o olhar do outro. — E mais: esquecera-me de te dizer uma coisa: também eu sou visconde, foi a semana passada.

O visconde sanguíneo corresponde, na via da Lua, à Sequência 5 «Erudito Carmesim»; uma das condições do rito de ascensão é que se faça sob a luz da lua cheia; além disso, é preciso reunir metais e gemas que representem diferentes fases da lua, e sangue de criaturas sobrenaturais — algo deveras complicado.

No entanto, Emlyn já tinha obtido a promessa dos altos da nobreza sanguínea de lhe realizarem o rito de graça; assim que se ergueu a lua cheia, completou a ascensão sem entraves.

Quanto a digerir o « de Poções», sentia ter-lhe dado pouco esforço e, ainda assim, ter-se saído bem, pois frequentemente leccionava aos crentes plebeus da Igreja da Colheita, dispostos a aprender, fitoterapia e até combinações de poções para usos especiais. Além disso, fora de coleccionar bonecos, estudar história e fazer trabalho voluntário na igreja, dedicava-se a explorar várias poções para diferentes cenários de combate.

— …Foste feito visconde? — Ernes Boyar endireitou-se bruscamente, com cara estupefacta.

Entre os Sanguíneos, por serem todos longevos, o número total acumulado não é pequeno, e as características sobrenaturais são limitadas; a subida de patente é deveras difícil, exigindo uma longa fila de espera. E Emlyn só era barão há cerca de meio ano!

Ernes lembrava-se de ter levado sessenta anos para passar de barão a visconde — e isso porque o pai sucumbira jovem a um ataque de vampiros artificiais, deixando-lhe a herança.

— Claro. — O sorriso de Emlyn alargou-se, mas conservou comedimento. — Obtive uma característica de Sequência 5 vinda de um vampiro artificial.

Ernes Boyar olhava Emlyn, sem saber o que dizer, como se houvesse recebido um golpe pior do que ser feito voluntário da Igreja da Colheita.

— A tua cara é divertida. — Emlyn estalou a língua. — Talvez um dia tenhas de chamar-me «Vossa Senhoria, conde».

— Soberba! Vaidade! — Ernes deixou escapar.

Já sou bastante humilde; não disse que queria ser duque ou príncipe… Sem o nível angélico, como serei salvador dos Sanguíneos? E ademais, no nosso Clube de Tarô, o senhor «Mundo» já ascendeu a Semideus e a senhorita «Eremita» não tardará — será, no futuro, sem dúvida, uma assembleia de Semideuses… — Emlyn riu, sem trocar pelejas com Ernes como das outras vezes, mostrando ar de que as palavras do outro não mereciam contestação.

Decerto, sabia também que a vantagem racial dos Sanguíneos, após o «Erudito Carmesim», deixa de existir, e que tornar-se conde não é menos difícil do que para um vampiro artificial ascender a «Rei dos Bruxos».

Fim do capítulo 1016