Olhando o naipe de «Justiça» na mão, Sue ficou um instante perplexa e disse: — Isto bate certo com a minha expectativa.
O «Tolo» entre a névoa acenou ao de leve e, em tom plano, dispôs: — Hora de
— No encontro poder-se-á trocar informação, materiais, fórmulas e conhecimentos; e, pagando certo preço, encomendar tarefas a outros membros.
Sue lembrou-se de algo e, como caindo em si, disse: — Sim, senhor Tolo.
Julgava ela que a coisa terminaria por aí; ouviu, porém, novamente, da cabeceira da longa mesa de bronze, uma voz: — Que fizeram antes de serem afectadas por aquela força?
Era contaminação, afinal… Sue serenou o ânimo e descreveu detalhadamente a exploração do castelo com Forsi; sublinhou a enorme porta de bronze chamada «Porta Negrejante», e os guardiões do castelo que, em tempos, tinham sido corrompidos e se haviam tornado espectros rancorosos.
Notou então que o senhor Tolo acenava de leve e, com voz pausada, dizia: — Antes da Sequência 4, não voltem a entrar naquele castelo.
— Regressem.
Sue ergueu-se de imediato e, conforme as descrições das cerimónias religiosas, fez uma respeitosa vénia: — A vossa vontade será a minha.
Mal calou a boca, diante dos olhos ergueu-se um vermelho profundo; quando tudo se dissipou, achava-se de volta ao mundo real, encostada a um árvore grosso.
Reflexamente olhou para o dorso das mãos: as manchas negras esmaeciam-se a toda velocidade; ergueu a cabeça e olhou para Forsi, que a fitava com inquietação.
Cruzando-se os olhares, Forsi primeiro alegrou-se, depois esboçou um sorriso desajeitado e abriu a boca, sem saber o que dizer.
Sue exalou devagar e apontou em frente: — Voltemos primeiro à povoação.
— Está bem! — respondeu Forsi sem hesitar.
Entretanto, sobre a névoa cinza, o «Tolo» Klein batia ao de leve na borda da mesa veteada, pensando no que sucedera às senhoritas «Maga» e «Justiça» naquele dia.
Mesmo que a coisa ou a força selada atrás da «Porta Negrejante» não se houvesse libertado, era capaz de corromper guardiões e exploradores de fora: o grau de horror, só de o pensar, dava medo!
E, como aquela contaminação se enraizava no corpo espiritual, para a resolver Klein dispunha apenas de duas vias: a primeira, fazer com que a afectada celebrasse uma cerimónia mística completa, e ele próprio, mobilizando o poder do espaço místico sobre a névoa cinza, mediante o «Broche do Sol», realizasse a purificação; a segunda, trazer directamente o corpo espiritual até aqui e, valendo-se da névoa cinza, «desinfectá-lo». Dado que o tempo apertava, optara pela segunda.
— Que será isto?
— A força mais corrosiva pertence à via do «Demónio»… estará aquilo ligado ao Abismo? Não é impossível: segundo a descrição do pequeno «Sol», em pleno princípio da Segunda Era, os demónios costumavam sair do Abismo e correr a terra; só quando o antigo Deus do Sol surgiu e, um após outro, fez cair os Antigos, recolheram-se ao Abismo e o selaram. Por isso, ter o Continente Norte antigas entradas subterrâneas para o Abismo, é bastante razoável. E que se erguessem castelos e se enviassem guardiões, também se compreende…
— Mas o problema está nisto: passados milhares de anos, como é que ainda se ouvem batidas lá dentro? Querem os demónios regressar à terra? — Klein fez uma primeira conjectura.
Por ora não tinha planos de explorar o castelo abandonado para verificar a ideia, pois a curto prazo não parecia que ali se desse grande mudança. Para ele, dado que a informação do castelo vinha do seio dos Sanguíneos, bem podia deixar que «a Lua» Emlyn investigasse a fundo a história do castelo.
Refreando os pensamentos, Klein tirou o pingente de quartzo amarelo e adivinhou se o assunto do castelo abandonado era urgente; obteve resposta negativa.
Voltou de imediato ao mundo real, à espera de que o enviado do governante local Meissanche, com o sinal e o adiantamento, chegasse.
…………
Hora de Fenepot, duas da tarde. De cabelo penteado para trás e indumentária de cavalheiro do Continente Norte, Hadji, escoltado por um esquadrão de guardas e com uma maleta de couro preto na mão, bateu à porta de Dwayne Dantès.
— Entre, entre — respondeu uma voz amável e refinada; primeiro em loanense com sotaque de Backlund, depois, mudando, em dutão local.
Hadji rodou a maçaneta e empurrou a porta. Viu Dwayne Dantès, têmporas branqueadas e olhos azuis profundos, levantar-se da poltrona segurando a barra do colete preto.
— Boa tarde, meu amigo. — Aquele cavalheiro loanense, de presença e porte excelentes, deu dois passos à frente e estendeu a mão direita.
Desta vez voltara ao loanense.
Hadji respondeu em loanense com entoação aristocrática: — É para mim uma honra chamar-me seu amigo.
Após um aperto leve com Dwayne Dantès, olhou em redor e, rindo, disse: — É este o seu criado?
Referia-se ao jovem mestiço de pé atrás do flanco do traficante de armas; tacitamente queria dizer «é de fiar?», pois no dia anterior, ao visitar a residência do general, Dwayne Dantès não levara nenhum criado.
— Sim; a maior virtude dele é saber guardar segredos. — Dwayne Dantès respondeu com um sorriso, apontando para o sofá de couro à frente da poltrona.
Hadji, rodeado de dois guardas, fechou a porta a qualquer modo, sentou-se e, sorrindo, disse: — Ouvi um provérbio de Intis, atribuído ao grande Imperador Roselle: — Diz: «só os mortos sabem guardar segredos.»
Dwayne Dantès não pôde deixar de rir e replicou: — O Imperador Roselle disse também outra coisa: — «Os cadáveres podem falar.»
— A sério? É a primeira vez que ouço. — Hadji gostava do trato com um cavalheiro do Continente Norte; conversaram um bom bocado antes de pegar na maleta a seu lado e abri-la.
Naquele instante, do interior da maleta pareceu transbordar um fulgor dourado; à luz do sol que entrava pela janela, toda a sala pareceu iluminar-se um tanto mais.
Hadji olhou Dwayne Dantès e disse: — Cinco mil libras de ouro loanesas, e moedas e barras no valor de mais cinco mil libras.
— Este é o adiantamento.
— Os restantes trinta mil, em notas e ouro, levá-los-ei comigo; serão entregues quando a entrega das armas estiver concluída.
Dwayne Dantès relanceou os fajos, moedas e barras; recolheu o olhar e, sorrindo, disse: — Quando partis?
Hadji fechou a maleta e entregou-a ao criado de Dwayne Dantès, dizendo escuetamente: — Amanhã de manhã.