Pular para o conteúdo

Lord of the Mysteries · Capítulo 958

Capítulo 952: A carta

17 de janeiro de 2020 · 4 min de leitura · 876 palavras

Quando Leonard voltou a si, diante dos olhos erguiam-se já altíssimas colunas de pedra, plantadas sobre uma névoa branco-acinzentada sem margens, sustentando um palácio majestoso, próprio de morada de gigante.

Verdes os olhos, perplexos, após um segundo de estupor, Leonard deu-se conta de que estava, sem saber quando, sentado a um dos lados de uma longa mesa de bronze, manchada pelo tempo; ao seu lado e em frente havia cadeiras de alto espaldar que infundiam dignidade e solenidade.

Na cabeceira daquela mesa veteada, uma figura envolta em densa névoa cinzenta encostava-se com desenvoltura ao espaldar, como observando do alto tudo quanto há no mundo.

Ao cruzar-se com os olhos de Leonard, aquela silhueta fê-lo sentir como se tivesse embarcado num transatlântico e olhasse de frente um abismo marinho sem margens nem fundo, ou como se, fora já da cidade, nos arredores, erguesse a vista para um pico que se eleva até às nuvens.

Num instante, uma multidão de ideias atravessou-lhe a cabeça, e fez ideia aproximada da sua situação; mas, como sobrenatural da igreja, como crente convicto de que os deuses existem de verdade, Leonard não pôde resistir ao impulso do coração e, sem dar por isso, dispôs-se a deixar o assento e a reverenciar o ser à sua frente.

A majestade divina, como uma montanha, como um mar!

Mal se erguera quando uma força invisível o fez voltar a sentar-se, e ao ouvido lhe ressoou uma voz pausada e plana:

— Não é preciso tanto.

— Podes chamar-me «senhor Tolo».

O Tolo… era ele, afinal… O coração de Leonard, antes temeroso do desconhecido, sossegou no instante; continuava inquieto pelo que pudesse vir, mas já não tão trémulo, já não tão inquieto no assento, nem com a boca seca.

Meio em pé, levando a mão ao peito, fez uma vénia e disse:

— Honrado senhor Tolo, por que me convocastes?

Como «Velador» de anos de experiência, como «Luva Vermelha» que intervira em vários casos de monta, Leonard sabia bem quão perigoso era estabelecer laços com uma Existência oculta; sabia que já escorregara do bordo do abismo e que não havia salvação possível.

No momento em que decidiu pronunciar o nome do «Tolo», pôde prever um fim trágico, mas, pela sua vingança, tomou essa decisão sem olhar atrás.

Ainda assim, todo o homem tem instinto de sobrevivência; ao pensar que , crente do «Tolo», não só estava vivo como se tornara semideus, Leonard não deixou de alimentar um vislumbre de esperança.

Nesse instante ouviu o «Tolo», envolto em névoa, soltar um riso baixo:

— Já que me imploraste auxílio, segundo a regra do intercâmbio equivalente, hás-de dar algo em troca.

Leonard tremeu de leve e baixou ainda mais a cabeça:

— Que desejais receber?

Após breve silêncio, a voz do «Tolo» voltou a erguer-se:

— Não há pressa. Talvez mais adiante te peça certas coisas: prestar a certas pessoas determinada ajuda.

— Senta-te.

Leonard exalou devagar e sentou-se. Olhou rapidamente a um lado e ao outro, e perguntou:

— Ele, Klein Moretti, veio aqui como eu?

O «Tolo» entre a névoa respondeu sem grandes alterações de tom:

— De modo distinto.

De modo distinto… na verdade, Klein não entrara aqui pronunciando o sagrado nome; entrara seguindo o encaminhamento de , esse «Magistrado da Morte», e assim se tornara crente do senhor Tolo… Leonard não pôde deixar de percorrer outra vez o lugar com a vista, e notou que à volta da mesa veteada havia, ao todo, vinte e duas cadeiras de alto espaldar.

Vinte e duas, como as vinte e duas vias sobrenaturais, ou como os vinte e dois arcanos do Tarô… «O Tolo»… Mal se lhe formou a conjectura, ouviu o senhor Tolo rir baixinho:

— Além de ti, outros seres foram trazidos para cá por diversos motivos.

— Imploraram-me que convoque encontros periódicos para troca de notícias, compra e venda de materiais, comércio de fórmulas, ajuda mútua — o que lhes permite subir mais depressa nas Sequências.

Isto difere algo da organização oculta de codinomes-de-Tarô que eu imaginava: mais frouxa… Com que fim acede o senhor Tolo a tal pedido? Desde que chegou ao antigo palácio sobre a névoa cinza, Leonard mantivera o ânimo em tensão máxima, o que lhe fez pensar mais depressa do que de costume e levantar muitas perguntas.

Após consumar a sua vingança, caíra em certa melancolia e vazio, como se tivesse perdido o rumo da vida; mas em breve se recompôs, porque a morte de Daly lhe ensinara que ainda não era forte o bastante: para reduzir, em futuras missões, o número de companheiros caídos, para não se ver sem meios de salvação, precisava de subir, pelo menos, à Sequência 4, à condição de meio deus.

Por isso, as palavras do «Tolo» causaram-lhe agitação: pareciam uma ocasião; e, ademais, julgava que entrar naquela assembleia, conhecer por dentro aquela organização oculta, poderia ajudá-lo, no futuro, a esquivar ao máximo o perigo dos laços com o «Tolo».

Após ponderar, Leonard tomou a palavra:

— Klein Moretti também é membro desse encontro periódico?

— Tem aqui um assento?

O «Tolo» respondeu com tom distraído:

— Sim.

Leonard guardou um segundo de silêncio:

— Honrado senhor Tolo, posso unir-me a esse encontro periódico?

O «Tolo», entre a névoa, respondeu com um sorriso:

Fim do capítulo 958