Incontáveis bruxas, de toda casta e tamanho, trouxeram uma destruição semelhante ao colapso de todas as coisas, fazendo com que o pico principal das Montanhas Honnachis tendesse para a forma de uma enorme bola de pedra.
Isso fez com que os desfeitos muros exteriores daquele antigo palácio caíssem rapidamente, deixando Klein, os seus clones e a sua marioneta misteriosa, no centro do grande salão, expostos, juntos, ao firmamento estelar.
Vendo que os tentáculos negros, à maneira de pitões, estavam prestes a invadir o palácio, naquela cena de apocalipse ergueu-se uma lua carmesim.
Banhado pela luz da lua, no contorno do salão brotaram, num instante, tufos de trigo, flores, cogumelos, árvores; entrelaçaram-se uns nos outros, camada sobre camada, e selaram, no interior, o palácio que pertencia a Antígono.
Naquele momento, o salão em que se encontrava Klein parecia uma ruína atravessada por milhares de anos de história e de floresta, totalmente engolida pela natureza.
Aqueles tentáculos negros com globos oculares na ponta, semelhantes a pitões, ficaram, pois, retidos cá fora por aquelas plantas que cresciam enlouquecidamente.
Erguiam-se e batiam sem cessar nessa 'barreira' nascida da natureza, fazendo com que esta, camada após camada, se petrificasse e se desfizesse, ou se desabasse de uma só vez.
Mas, fossem trigo, fossem flores, cogumelos ou árvores, a sua renovação vinha velocíssima — mal regressavam ao regaço da Mãe Terra, brotavam de novo.
Assim, aquelas barreiras naturais renasciam camada a camada e camada a camada se destruíam; camada a camada se destruíam e camada a camada renasciam — entrando em certo impasse.
A 'Mãe Terra', que detinha a unicidade da via da 'Lua', detivera a 'Bruxa Primordial' Chic.
Nesse instante, um 'fulgor' invisível para a esmagadora maioria dos sobrenaturais caiu, a pino, do alto e bateu contra essa barreira natural de plantas.
Aquele fulgor não tinha corpo, parecia composto por amálgamas de informações complexas; em forma ilusória, como uma enxurrada, atravessou as frinchas entre as plantas e correu direito a Klein, que estava a ponto de pegar naquela máscara semitransparente.
O 'Sábio Oculto'!
Precisamente nesse momento, um clarão enevoado brotou do nada e desenrolou, em torno de Klein, rolo de pintura após rolo de pintura, semelhantes a projecções.
Uns registavam a impotência e miséria do humano face às espécies sobrenaturais; outros, com pincel épico, reproduziam cenas em que os homens se tomavam a si próprios por sujeitos de experiência e tentavam fundir materiais sobrenaturais para obter força e salvar a espécie; outros descreviam mil e um costumes populares estranhos surgidos por causa do 'Imperador Negro'; outros carregavam invenções de todo o género, livros de todo o género, opiniões de todo o género; outros eram, como cópia do mundo presente, formados por máquinas enormes que cuspiam vapor, edifícios cada vez mais altos e vestes mais cómodas para o movimento…
Esses conteúdos faziam com que os rolos, aparentemente tão finos, dessem a sensação de extraordinário peso, pois o que neles se carregava era a civilização — a ilustração e o desenvolvimento da sociedade humana nas suas diversas etapas.
No seu tempo, aquele 'Deus dos Artífices' não havia digerido bem a poção de Sequência 1, 'Iluminador da Civilização', antes de, por diversos motivos, ascender à Sequência 0, mantendo no entanto a razão e a lucidez; isso, porém, obrigou-O a despender mais da Sua mente a contrariar a tendência para o descontrolo e a loucura, sendo, entre os sete deuses ortodoxos, um pouco mais fraco do que os restantes.
Que a Igreja do Vapor fosse a mais fraca das organizações dos deuses ortodoxos devia-se, além de à curta história e à pouca acumulação, ao facto de o seu deus verdadeiro não estar em estado óptimo.
Quando Roselle, na identidade do 'Filho do Vapor' e membro da Igreja, ergueu a Revolução Industrial e trouxe consigo toda a sorte de correntes de pensamento, foi então que o 'Deus dos Artífices' apanhou a oportunidade para mudar o nome para 'Deus do Vapor e da Maquinaria' e partilhar do avanço da iluminação, digerindo a poção correspondente.
E, como deus verdadeiro de uma via afim, depois de o 'Sábio Oculto' escolher inimizar-se com Klein, acabou por se pôr do lado dos restantes deuses ortodoxos.
O torrente de informações, espantosamente vasto, bateu nesses rolos ilusórios e dilatou-se rapidamente, tentando rebentar a 'jaula'.
Mas a civilização de milhares e dezenas de milhares de anos era tão pesada e vasta; a história deixada por gerações sobre gerações de humanos, na ordem das centenas de milhões, era tão imensa e grandiosa, que para suportar o torrente de informações do 'Sábio Oculto' bastava-lhe e sobrava.
Enquanto o 'Sábio Oculto' lutava por romper a limitação do 'Deus do Vapor e da Maquinaria', dentro do salão de Antígono, selado camada a camada por plantas, os tentáculos viscosos e estranhos que Klein havia estendido pegaram naquela máscara semitransparente que representava a unicidade do 'Tolo' e a aproximaram do seu próprio rosto.
Mal a máscara cobriu o rosto de Klein, surgiram à volta figura após figura.
Uns eram homens em fardamento de carteiro; outros, aves vulgares; outros, criaturas tão minúsculas que a vista a olho nu não as alcançava; o seu número chegava às centenas, aos milhares.
O salão, em que apenas havia cadáveres suspensos no ar, encheu-se de repente.
E o traço comum daquelas figuras era trazer, ou no olho direito um monóculo de cristal polido, ou no mesmo lugar um anel de marca de cor diversa.
Os clones do Senhor 'Erro', Amon!
Aproveitaram, não se sabe se a invasão da 'Bruxa Primordial' ou a do 'Sábio Oculto', para abrir uma porta dos fundos, esgueirar-se pelas fendas e chegar, sem qualquer ruído, às imediações do alvo.
Lançando um olhar a Klein, que mal pusera a máscara semitransparente e começara a acolher a unicidade do 'Tolo', estes Amons mostraram, a um tempo, 'sorrisos', abriram as 'bocas' e cuspiram palavras que nenhuma pessoa normal poderia entender.
Essas palavras entrelaçaram-se e formaram murmúrios terríveis e enlouquecidos:
— Esqueceste-te da 'Bruxa Primordial'…
— Para Ela, o
— O que mais deseja agora é que nasça, sem demora, um 'Senhor dos Mistérios' que rompa o selo do Continente Ocidental e Lhe dê a oportunidade de encontrar a 'Cidade das Calamidades'…
— É evidente: comparado contigo, eu sou a melhor opção; tu és demasiado fraco…