Ao ouvir a resposta do espírito maligno «Anjo Carmesim», a expressão da «Bruxa Branca» Catalina ficou no acto petrificada, sem que ela pudesse contê-la.
— E aquele sujeito de há pouco — que ainda recentemente precisava de se apoiar em
— Sei o que pensas: por um lado, tens muita inveja; por outro, brotou em ti um desejo torcido, o de provar a ti mesma deitando-te com ele. Vocês, bruxas, são deveras risíveis: por um lado têm de aferrar mentalmente que eram, no princípio, homens, para não se perderem e não saírem de controlo; por outro, têm de mostrar o encanto feminino, procurar o extremo do prazer e a paixão mais intensa. Nós, caçadores, não temos esse problema: qualquer que fosse o sexo de origem, depois é apenas guerra, guerra, guerra!
— A Primordial é, de facto, um ser torto; para uma mulher pura, a senda de bruxa seria muito mais adequada. Geração após geração têm-se passado o mal umas às outras; o objectivo principal é, no fundo, vingar-se do destino, não é assim?
Cada frase do espírito maligno «Anjo Carmesim» era como uma flecha aguda, cravando-se no coração da «Bruxa Branca» Catalina; o seu rosto puro e delicado contraía-se levemente, e o seu cabelo negro, longo e lustroso parecia engrossar um pouco.
Sauron Einhorn Medici lançou um olhar oblíquo a Catalina e logo riu, com estalido na boca: — Não me digas que te vou levar a perder o controlo só com isto?
— Que sensação saudosa, na verdade.
O espírito maligno «Anjo Carmesim» fez uma pausa e disse: — Podes ir. Se surgir algo, lembra-te de invocar o Meu nome sagrado; claro, se for necessário, Eu mesmo virei ter contigo.
O rosto da «Bruxa Branca» Catalina recuperou a normalidade; franzindo levemente o sobrolho, perguntou como se não conseguisse acreditar: — Assim, sem mais, deixa-me ir?
O espírito maligno «Anjo Carmesim» riu por entre os dentes: — Quê? Queres deitar-te Comigo? Se houver oportunidade, não está fora de questão; mas neste momento há algo bastante mais importante a fazer.
— Fica descansada: visto que já invocaste o Meu nome sagrado e Me deste uma gota do teu sangue, estás sob o Meu olhar e, a qualquer momento, podes ser influenciada por Mim.
— Já te esqueceste da diferença de patamar entre anjo e santo? Não saberás quão poderoso é, na verdade, um verdadeiro alto patamar?
— Heh — a menos que reces directamente à Primordial e obtenhas a Sua resposta, jamais te livrarás do Meu olhar. Bem, em circunstâncias normais um anjo poderia consegui-lo, mas só quando o nome foi proferido apenas uma vez. Se não acreditas, autorizo-te a pedir ajuda a um anjo.
A «Bruxa Branca» Catalina ouviu com o semblante ligeiramente sombrio; no fim esboçou um sorriso e disse: — Obedeço aos vossos ensinamentos, senhor Medici.
Os sobrolhos de Sauron Einhorn Medici tremeram: — Pareces não ser assim tão pacífica; até consigo imaginar o estado em que estavas há pouco, frente a Gehrman Sparrow. Mas não me importa.
— Ah, esqueci-me de te dizer: convém que verifiques imediatamente o estado dos teus descendentes de sangue. Que Gehrman Sparrow te tenha encontrado com tanta facilidade — não te parece que aí há algo estranho?
O semblante de Catalina empalideceu ligeiramente a princípio, depois tornou-se sério e grave; assentiu lentamente: — Compreendi.
Dito isto, recuou logo, voltou a entrar pela janela de vidro e, através do ilusório mundo de espelhos sobrepostos, seguiu para sabe-se lá onde.
Vendo a «Bruxa Branca» desaparecer, na bochecha esquerda do espírito maligno «Anjo Carmesim» abriu-se de repente uma fenda sanguinolenta, e dela saiu uma voz: — Boa actriz, sem dúvida: fá-la passar por alguém que não domina bem a expressão, um nada irrequieta, mas sem a esperteza suficiente, de modo que as intenções se vêem com facilidade.
— Pois. Assim sendo, há boas hipóteses de a subestimarmos e baixarmos a guarda perante ela. — Na bochecha direita do «Anjo Carmesim» abriu-se também uma fenda cor-de-sangue, sinistra.
— Tch. As bruxas são, em verdade, todas astutas. Mas Eu nunca menosprezo qualquer presa. — O «Anjo Carmesim» falou agora pela boca normal. — Quer adormecer-Me, fazer com que A subestime; nem a menor hipótese.
A fenda sanguinolenta do lado esquerdo abriu-se e fechou-se ao responder: — Então porque foste apanhado, em tempos, por
— Foi por causa de vós os dois. — A personalidade que pertencia a Medici torceu os lábios. — Não tem qualquer relação com menosprezos ou adormecimentos.
A fenda sanguinolenta do lado direito bufou: — Que tal é ser presa de outrem, grande Deus da Guerra, «Anjo Carmesim» ao lado do Criador?
— Nada mau. — O semblante de Medici ensombreceu-se um pouco, mas as palavras que disse soaram quase satisfeitas.
A personalidade que pertencia a Sauron falou pela fenda do lado esquerdo: — Gostas demasiado de conseguir as coisas com bluff; foi precisamente por isso que, em tempos, Alista e os outros viram o teu bluff e aproveitaram a ocasião.