— … — Luca Brewster baixou o olhar para si próprio e, com presteza, ergueu a mão direita, dando um gesto de agarrar para o lado.
Os seus olhos verde-acinzentados aprofundaram-se, com isso, num negro carregado.
O ouro fundido com a escadaria voou de imediato para o ar e ali fundiu-se numa fina couraça que se ajustou ao corpo de Luca Brewster.
Luca mexeu os braços a fim de avaliar o efeito e explicou:
— A «Técnica da Armadura Dourada de Stiano» — oferece um nível de defesa equivalente a um Sequência 5 «Guardião».
— Stiano? — perguntou Klein de passagem.
Luca respondeu no tom de quem apresenta uma figura histórica eminente:
— Um dos primeiros fundadores da Ordem Ascética de Mosse.
— Diz-se que o Grande Imperador Roselle aperfeiçoou outrora esta «Técnica da Armadura Dourada»; ignoro que efeito acabaria por surtir.
…Posso mais ou menos imaginá-lo… talvez essa «Armadura Dourada» possuísse doze configurações distintas… Klein murmurou consigo mesmo um par de comentários e reconduziu a conversa ao rumo previsto:
— Feneport e a Igreja da Deusa Mãe Terra já entraram formalmente na guerra?
Audrey, que abrira os olhos no instante em que Luca começara a descrever a «Técnica da Armadura Dourada de Stiano», conteve o impulso de virar a cabeça e, sem qualquer alteração no olhar, fitou o reluzente semideus.
Luca suspirou:
— Por mais que tenham pensado antes, depois desta noite entrarão sem qualquer dúvida formalmente na guerra.
— Decerto, por enquanto não apontarão a Loen; a probabilidade maior é que ataquem
Após este desabafo, o semideus da Igreja do Conhecimento dirigiu-se com sinceridade a Audrey, escondida por trás da máscara branco-prateada:
— Não sei que honorário deverei pagar.
Audrey lançou um olhar ao senhor «Mundo» a seu lado:
— Ele já o pagou.
Luca Brewster passou então o olhar para Dawn Dantès.
Klein pensou um instante e disse:
— Permita-me colocar algumas perguntas.
— Faça favor. — Naquele momento Luca nada tinha do porte de um semideus-meio-humano; antes lembrava um professor numa sala de aula, à espera da pergunta de um aluno.
Se pudesse despir aquela armadura dourada e envergar um sóbrio fato de três peças, a parecença seria ainda maior.
Klein, sem se demorar a pensar, perguntou directamente:
— Que sabe acerca da contaminação proveniente das profundezas subterrâneas?
Na sua óptica, o que um santo da Igreja do Conhecimento, célebre pela erudição, pudesse saber, o seu próprio nível haveria de o aguentar; e, caso o tema não conviesse aos ouvidos da menina «Justiça», estava convicto de que Luca o assinalaria — afinal, não era um simples «rato de biblioteca».
Como a discussão sobre a contaminação subterrânea nascera da exploração do mar do subconsciente colectivo nas «Viagens de Grossel», Audrey tinha alguma noção da matéria; agora não sentia que algo lhe escapasse e aguardava com atenção a resposta do semideus à sua frente.
Luca franziu levemente o sobrolho:
— Aquilo que sei sobre isso também não é muito; parece que o próprio conhecimento engendra contaminação.
— Hum, num texto antigo deparei-me certa vez com a seguinte frase: quanto mais alta a Sequência, maior o perigo de aproximar-se ao subsolo.
Será por isso que o «Dragão da Fantasia» Angeruwed deixou uma sombra tão profunda e certo temor? Audrey pensou de imediato no que está selado por trás daquela grande porta de bronze, na «Cidade dos Milagres», Leveshid.
Voltou logo o olhar para o senhor «Mundo» a seu lado, mas não conseguiu descortinar a menor alteração na sua expressão.
Contudo, Klein fez a marioneta secreta acenar suavemente, indicando à menina «Justiça» que a associação que ela fizera era a mesma que a sua.
Isto deu a Audrey a sensação de ter regressado ao passado, ao tempo em que ainda era uma utilizadora de baixa Sequência da via do «Espectador», incapaz de tirar das expressões e gestos do senhor «Mundo» qualquer informação útil.
Quanto mais alta a Sequência, maior a ameaça do que jaz debaixo da terra? É algo contra-intuitivo… Vendo que Luca já não conseguiria fornecer mais informação, Klein pensou um momento e disse:
— Segunda pergunta: que profecia tem o senhor sobre esta guerra?
À palavra profecia, Luca Brewster animou-se instantaneamente:
— Por agora é apenas um começo; está longe do seu auge.
— Além disso, uma destruição maior nasce da guerra e, no entanto, fica fora dela; o que é, ao certo, nem eu sei.
A guerra mal levantou a cortina… O ânimo de Audrey, sem poder contê-lo, ensombreceu-se.
Nasce da guerra e fica fora dela? Será o rito de divinização do irmão de
— Já ouviu falar da Profecia do Fim do Mundo? Qual a sua leitura?
A expressão de Luca Brewster tornou-se num instante grave:
— Não, isto não é uma profecia.
— Todos os que possuem o dom profético afirmam, com total certeza, que o Fim do Mundo está prestes a chegar.
— Nas sagradas escrituras que nos foram dadas por nosso Deus afirma-se que o Fim do Mundo cai no ano 1368 da Quinta Era.
— E, claro, Deus disse igualmente que haverá um salvador.
A profecia do «Deus do Conhecimento e Sabedoria»? Ano 1368, restam apenas uma dezena de anos… Será que a Deusa, em vez de manter a aliança com o Deus da Guerra, preferiu apoderar-se da «unicidade» da via do «Deus da Morte» também por causa da iminência do Fim? O semblante de Klein, sem dar conta, tornou-se grave, mas isso não se reflectiu na cara da marioneta secreta.
Apenas uma dezena de anos até ao Fim do Mundo… Audrey, algo aturdida, ia revolvendo no espírito as palavras do semideus à sua frente.