Rua Berklund, n.º 160, residência de Dawn Dantès.
Depois de «Teleportar» de volta por um desvio, Klein não se demorou: dispôs logo o altar, celebrou o rito e orou ao «Deus da Morte»: — Tu és a essência da morte; — Tu és o soberano dos mortos; — Tu és o último porto de todo o ser vivo.
— Imploro o Teu auxílio; imploro que me seja revelado como resolver o assunto do espírito maligno «Anjo Carmesim». Ele tomou posse do corpo de um «Porteiro» e, em conluio com Heitel, o Sumo Sacerdote do Episcopado Numinoso, veio a
Neste assunto Klein, na verdade, não tinha outra saída senão pedir auxílio à «Deusa da Noite».
— Pondo de lado a questão de se, mesmo aliado a
E, se o «Anjo Carmesim» fosse deixado entregue a si mesmo, este espírito maligno, oriundo da via do «Conspirador», em pouco tempo aperceber-se-ia das anomalias em torno de Patrick Brain; com o conhecimento e a informação de que dispõe, não lhe seria difícil adivinhar a essência do problema.
«Faça-se o que se fizer, é um erro. Bem digno de um anjo do domínio da 'Guerra': mesmo reduzido a um corpo espiritual triuno, pode deixar quem quer que seja sem solução para o dilema que cria. Foi com certeza Ele que aconselhou Heitel…
«Na verdade, há uma via extrema: arranjar maneira de que este espírito maligno 'Anjo Carmesim' seja morto, por causa de outro assunto, por outra igreja, por uma força oficial ou por uma organização oculta. Seja como for, ninguém ligado à Deusa pode mostrar a cara; tudo tem de ficar claro e à vista…
«A dificuldade desta abordagem é como fazer com que uma figura de alto escalão do domínio da Conspiração caia na armadilha… Um passo em falso e o fogo vem para cima de nós…»
Terminada a oração, Klein deixou os pensamentos vaguear à toa, esperando, com paciência, a resposta da «Deusa da Noite».
Passados uns dez segundos, as brasas das ervas oferecidas para agradar aos deuses foram levantadas por um vento invisível, voaram para fora do grande caldeirão e caíram sobre a mesa, formando palavras: «Quando Ele chegou aqui, a terra erguerá as armas.»
Que significará isto? Olhando para aquela frase vagamente familiar, Klein franziu ligeiramente o sobrolho.
Como «Adivinho», pôs-se, por hábito, a interpretá-la: Por causa do problema do rei, Loen mergulhou na sombra da guerra, e por isso veio o «Anjo Carmesim», emblema da guerra.
Isto quer dizer que a guerra talvez já não possa ser evitada.
— Chegado à Sequência 1, em si próprio, torna-se uma espécie de emblema.
Enquanto os pensamentos de Klein lampejavam, o vento invisível parou; o interior do altar, isolado pelo «Muro de Espiritualidade», ficou em silêncio absoluto.
Não haverá mais revelações? Klein esperou mais um pouco e, depois de comprovar que era de facto tudo, encerrou o rito e recolheu o altar.
A seguir foi até ao canto do sofá da sala e sentou-se, para ver se sucedia algo mais.
Mas passou um quarto de hora inteiro sem que aparecesse aquela anjo oculta, abadessa do Convento da Noite e primeira dos treze arcebispos: Arianna.
Não há que tratar do espírito maligno «Anjo Carmesim» — fica assim? Ou existe outro caminho e eu não devo participar? Klein, no fundo, não era um devoto fervoroso da Noite; uma vez que a Deusa dizia que não havia que intervir, também ele não tinha pressa de intervir: de qualquer forma, este assunto era para ele não só muito incómodo como extremamente perigoso.
Abanando a cabeça, Klein tirou papel e caneta do bolso e pôs-se a realizar a «Adivinhação Onírica».
O que se passara nesta noite fê-lo sentir, intuitivamente, que não havia um instante a perder: a poção do «Feiticeiro» tinha de ser digerida o quanto antes.
……
Sobre o Mar de Névoa, dentro de um mercante misto a vapor e vela que se encontrava muito perto de uma nau pirata.
Homens e mulheres de idade, mãos atadas atrás das costas, foram empurrados até à amurada; depois os piratas, à mão ou a pontapé, fizeram-nos cair ao mar.
Sucessivos splash ecoaram; os piratas, sem se incomodarem, completaram entre risos aquela matança sem sangue.
Despachados os cativos previstos, juntaram-se à amurada com as suas armas e lanternas, prontos a apreciar o debater-se daqueles desgraçados.
Mas, à luz das lanternas, o mar azul-escuro ao lado do navio erguia-se em silêncio, e não restava uma única silhueta humana.
— Foram ao fundo tão depressa? — escapou-se de um pirata, espantado.
O capitão daquela companhia franziu o sobrolho, olhou demoradamente e disse: — Talvez tenha passado algum monstro marinho e tenha tomado aqueles que ousaram resistir como um alimento concedido por um deus.
— Ainda bem: bem alimentado, não nos atacará a nós…
Dito isto, o capitão fez um gesto com a mão: — Pessoal, divirtam-se à vontade!
Como pirata com já alguma experiência, sabia que no mar acontecem muitas coisas estranhas; perante elas, é melhor não procurar a causa nem tentar saber a verdade: como não houve dano para ele nem para os seus, restava agradecer ao «Senhor das Tempestades» pela protecção e fazer de conta que nada se tinha passado.
Designados os homens de quarto, os piratas começaram a beber às goladas, a comer aos bocados, a cantar a plenos pulmões e a puxar das facas para disputar o domínio sobre as jovens cativas.
Em meio à bulha festiva, o capitão pirata levou para o camarote outrora do mestre uma bela passageira em quem havia muito deitara olho, e, sem mais demora, iniciou o último número daquela noite de farra.
Por volta da meia-noite, o capitão, adormecido de cansaço, estendeu a mão direita e tocou em algo gelado, sem ponta de calor.
Acordou de sobressalto; à luz carmesim da lua que entrava pela janela, viu que o que tinha nos braços era um tronco de superfície áspera.
Daquela madeira brotavam ramos atrás de ramos, carregados de folhas verdes frescas, que envolviam o capitão pirata como braços e pernas humanos.
Pumba!
As pupilas do capitão dilataram-se a toda a pressa; afastou a madeira, saltou da cama e recuou a tropeçar.
Estive há pouco com… isto? A cabeça estava-lhe cheia de pensamentos aterrorizados; sem tempo de se vestir, pegou na arma e no sabre e saiu directamente do camarote.
Lá fora, um pirata estava de guarda.
— Capi, qu'é q'a — esse pirata, ao ver o capitão sair, apressou-se a perguntar.